Asaas e TOTVS avançaram nesta semana sobre o pagamento dentro da rotina das empresas. A Nuvemshop, usada aqui como comparação, mostra como controlar a loja e o checkout pode influenciar a escolha do serviço financeiro. Minha leitura é que esses movimentos disputam algo anterior à transação: o lugar onde o cliente organiza seu negócio. Mas transformar esse acesso em receita com margem exige acertar o cliente, entregar valor na jornada e sustentar a operação. A experiência que vivi construindo a Maquinona no iFood Pago ajuda a olhar para essa distância entre uma tese atraente e um negócio que funciona.

Payments · fato da semana + trajetória

Asaas: pagamentos no atendimento, na gestão e agora no balcão

Asaas lançou a Smart, sua primeira maquininha física, em 14 de outubro, segundo matéria da The Startup Journal. E de acordo com o site da empresa, ela recebe cartão, Pix e vouchers, com recebíveis destinados à conta Asaas nos prazos de cada modalidade. O anúncio amplia o alcance presencial de uma plataforma que já atua em cobranças e gestão financeira.

O histórico muda a interpretação. Em junho, o Asaas anunciou a aquisição da HelenaCRM por R$ 150 milhões, associando agentes de IA à jornada comercial das PMEs. Em 5 de outubro, divulgou uma captação de R$ 300 milhões para financiar antecipação de recebíveis. São movimentos anteriores à semana: um aproxima a empresa da formação da venda; outro amplia a capacidade de transformar recebíveis em liquidez.

O movimento do Asaas me parece consolidar uma estratégia de serviços financeiros integrada ao seu ecossistema de soluções. A HelenaCRM, focada em atendimento e canais de conversa como WhatsApp e Instagram, já incorpora pagamentos online pela integração com o Asaas, documentada para o atendimento pelo WhatsApp. No Base ERP, a conexão sincroniza cobranças e extratos e permite conciliar as movimentações. A Smart acrescenta o recebimento presencial. O elo entre essas frentes é levar serviços financeiros aos ambientes em que a PME vende e administra o negócio; isso não pressupõe uma integração direta entre o CRM e a maquininha.

Durante cinco anos, vivenciei a construção do portfólio de serviços financeiros do iFood e sua integração ao ecossistema da empresa. Na Maquinona, partimos da oportunidade de levar o relacionamento e a distribuição do iFood aos pagamentos dentro do restaurante. Ainda assim, no lançamento apostamos em um perfil de cliente que não era o ideal. Tivemos de rever a estratégia de aquisição e repriorizar o roadmap. Esse episódio me faz olhar para a Smart por segmento: quais clientes já usam o Asaas, recebem presencialmente e têm uma necessidade forte o suficiente para mudar de fornecedor? A base existente facilita o acesso, mas não define, por si só, quem deve receber a primeira oferta.

A oportunidade econômica varia conforme o canal. No CRM, incorporar a cobrança ao atendimento pode reduzir o trabalho entre negociar e receber. No ERP, sincronizar os registros pode diminuir conferências e tornar o Asaas parte da rotina financeira. Na Smart, a oportunidade é capturar recebimentos presenciais que passam por outros fornecedores. Para o Asaas, essas frentes podem ampliar o uso de pagamentos e antecipação na mesma base. Mas cada uma precisa justificar seus custos: software e atendimento no digital; equipamento, logística e suporte também no presencial.

Minha leitura é que o Asaas vem construindo um conjunto mais robusto de soluções no qual os serviços financeiros atravessam diferentes tarefas da empresa. O Base ERP ajuda a entender esse desenho: não cobra mensalidade, mas prevê cobrança pelo uso de determinados serviços. O software cria motivos para o cliente permanecer na plataforma; pagamentos e outros produtos podem monetizar essa relação. HelenaCRM e Smart ampliam os pontos de contato, cada uma em seu canal. A questão estratégica passa a ser quanto essa presença gera de uso adicional e contribuição por cliente — sem depender de que todos adotem todos os produtos.

Embedded finance · contexto histórico, não lançamento da semana

Nuvemshop: o serviço financeiro faz parte da proposta comercial da loja

A Nuvemshop entra como comparação estratégica, sem lançamento confirmado entre 12 e 18 de outubro. Seu ponto de partida é o software que permite ao lojista operar a loja online. O Nuvem Pago incorpora o recebimento a essa rotina; o Checkout Acelerado procura facilitar a conclusão da compra. Já a parceria de entregas com o iFood, anunciada em setembro, atua na logística. São funções diferentes ao redor da venda, e a parceria logística não demonstra integração financeira com o iFood.

O preço ajuda a explicar a estratégia. De acordo com o site da empresa, vendas com Nuvem Pago ficam isentas da tarifa por venda da plataforma, mas continuam sujeitas à taxa de processamento. Minha leitura é que a Nuvemshop pode abrir mão de uma cobrança para estimular outra fonte de monetização. Por isso, a economia do pagamento precisa ser avaliada junto à do software: a receita líquida das transações deve compensar a tarifa dispensada e os custos adicionais. Para o lojista, a comparação relevante também é o custo combinado, não apenas a taxa anunciada pelo provedor financeiro.

Há ainda uma escolha de distribuição dentro do produto. A documentação informa que, com Nuvem Pago e Mercado Pago ativos, o primeiro tem prioridade no checkout transparente. O Checkout Acelerado permite reutilizar dados em lojas habilitadas e exige Nuvem Pago nas lojas criadas a partir de outubro de 2024. Essas regras aproximam uma experiência desejada da adoção do serviço financeiro. A plataforma influencia a decisão pelo desenho da jornada, além da negociação de preço.

A hipótese estratégica é que essa combinação pode transformar a relação com o lojista: a plataforma ganha oportunidades de monetizar conforme ele vende, enquanto tem incentivo para melhorar a conclusão das compras. Mas os interesses só se alinham de fato se o lojista perceber valor. Adoção motivada pela isenção de tarifa não prova que houve mais vendas; e volume maior no Nuvem Pago pode representar apenas migração de outro processador. O que distinguiria uma vantagem sustentável seria contribuição adicional para a plataforma acompanhada de melhor resultado para o lojista.

Na Maquinona, a proposta de identificar o consumidor no pagamento, com consentimento, e oferecer cashback buscava estimular novas visitas ao restaurante. Na Nuvemshop, o mecanismo do Checkout Acelerado é reduzir esforço na compra online. A comparação me interessa porque os dois conectam o serviço financeiro a um objetivo comercial do cliente. Ela também exige precisão: retorno ao salão e conclusão do checkout são resultados diferentes, e a existência dessas funcionalidades não comprova o ganho em nenhum deles.

Para uma fintech independente, esse cenário muda a venda: competir pela menor taxa pode ser insuficiente diante do custo combinado e da conveniência do produto nativo. É necessário mostrar uma vantagem que importe àquele lojista — como aceitação, gestão de risco ou atendimento — e que compense a alternativa integrada. Para a Nuvemshop, a pergunta é quanto da preferência permanece quando se separa o incentivo comercial do benefício operacional. Conversão e contribuição por lojista, comparadas entre perfis e períodos equivalentes, ajudariam a responder; apenas a participação do Nuvem Pago nas vendas não resolve a questão.

Software de gestão · fato da semana + estratégia declarada

TOTVS: transformar a gestão em um canal de serviços financeiros

A TOTVS apresentou o TOTVS Pay no Universo TOTVS. A cobertura de 13 de outubro descreve recebimentos digitais por cartão, Pix e boleto conectados ao ERP, com infraestrutura da Zoop e da Malga e conciliação automatizada. O modelo anunciado cobra pelo uso, sem mensalidade ou setup. A proposta aproxima o pagamento da rotina em que a empresa já controla suas vendas e contas. Planos de expansão presencial citados na cobertura não devem ser confundidos com a oferta digital apresentada.

Essa iniciativa se encaixa na estratégia declarada no RI: Gestão fornece dados e integrações; Techfin reúne serviços de crédito e pagamentos; Business Performance atua em vendas e relacionamento. São papéis distintos dentro de um portfólio mais amplo. Minha leitura é que o Pay acrescenta execução financeira à presença da TOTVS na operação do cliente. Esse alinhamento estratégico, porém, não estabelece uma integração do Pay com todo o portfólio ou com todos os produtos de crédito.

A oportunidade econômica tem duas partes. A primeira é gerar receita vinculada às transações, além da remuneração pelo software. A segunda, como hipótese, é tornar a própria gestão mais valiosa: se a empresa consegue receber e conciliar com menos trabalho, ganha um motivo adicional para manter o sistema. Isso pode melhorar a economia da relação com o cliente, mas também aumenta a responsabilidade da TOTVS. Um problema financeiro dentro do ERP pode afetar a confiança no produto principal, mesmo quando a falha se origina em um parceiro.

A escolha de parceiros indica uma decisão sobre onde construir capacidades. Zoop e Malga participam da infraestrutura anunciada; a TOTVS aproxima essa oferta de quem já utiliza sua gestão. Para a companhia, a vantagem potencial está em distribuir e integrar ao processo do cliente, sem desenvolver cada componente financeiro. Para os parceiros, está no acesso a essa distribuição. O valor precisa ser dividido entre eles, e as fontes consultadas não revelam os termos dessa divisão. Portanto, volume processado não permite deduzir quanto fica com a TOTVS.

O modelo sem cobrança fixa pode reduzir a barreira para experimentar, mas desloca a exigência econômica para o uso. Ativar uma empresa que transaciona pouco ou demanda muito suporte pode não pagar o esforço de integração. A questão é escolher onde pedido, recebimento e conciliação formam uma rotina frequente e padronizável. Vertical e perfil do cliente passam a orientar a prioridade de implantação, em vez de tratar a base inteira de ERPs como um mercado imediatamente convertido.

Na Maquinona, minha equipe ajudou a conectar pagamentos aos PDVs, geridos por outras equipes. Com a escala, vivemos gargalos de plataforma e taxas de aprovação abaixo do necessário, o que exigiu rever monitoria e operação. Essa experiência me faz olhar para o Pay além da integração inicial: quem identifica a falha, coordena os parceiros e resolve a exceção para o cliente? Essa capacidade pode transformar uma integração fácil de demonstrar em uma operação confiável — ou consumir a margem em retrabalho.

Para uma liderança de software, a lição é definir o problema financeiro que consegue resolver melhor por conhecer a operação do cliente. Para a TOTVS, eu observaria a proporção de clientes elegíveis que realmente usa o Pay, a conciliação sem intervenção e a contribuição após parceiros e suporte, por segmento. Para fornecedores financeiros, a oportunidade é complementar essa presença com especialização; o risco é disputar somente preço quando a plataforma controla a escolha e o relacionamento. Nenhuma dessas hipóteses equivale a rentabilidade já demonstrada do produto.

Crédito · outro movimento da semana

Bull: a oportunidade dos agentes está na conversão do funil

A Bull ampliou agentes de IA para validação documental, sinais de fraude e acompanhamento de contratos no consignado privado. Segundo informações da empresa reproduzidas pela Let’s Money em 14/10, determinados processos podem cair de cerca de 45 minutos para 10 segundos. A medida se refere a uma etapa, não à contratação inteira.

Se essa etapa trava o onboarding, menor espera pode reduzir abandono e elevar contratos por proposta. Há uma segunda alavanca: atender mais propostas com a mesma equipe. Para os parceiros que distribuem crédito, isso pode melhorar o aproveitamento do investimento comercial. A comparação útil é conversão final e custo por contrato, incluindo retrabalho. Se a demora apenas migrar para a etapa seguinte, a automação terá melhorado uma tarefa sem resolver o gargalo do negócio.

Infraestrutura · outro movimento da semana

Mastercard e BVNK: disputar a integração também é disputar distribuição

Em 15/10, Mastercard e BVNK anunciaram a Global Money Platform, reunindo capacidades de moedas tradicionais e stablecoins em uma API. O comunicado apresenta a oferta via BVNK e descreve contas, conversão e movimentação de recursos; suporte a comércio por agentes é futuro. Não confirma disponibilidade irrestrita de todas as funções no Brasil.

A leitura estratégica é complementar à dos softwares: quem agrega a infraestrutura pode reduzir o trabalho de empresas que querem distribuir serviços financeiros sem montar toda a operação. A facilidade de integrar pode concentrar mais fluxos no fornecedor, mas também aumenta a dependência do cliente. A decisão deve comparar o custo completo de receber, converter e pagar, além da possibilidade de trocar componentes. Stablecoins só acrescentam valor se melhorarem esse fluxo concreto.

Para levar à decisão

O movimento comum é aproximar os serviços financeiros da tarefa que dá origem à necessidade de usá-los. No Asaas, essa presença se distribui entre atendimento, gestão e recebimento presencial. Na Nuvemshop, aparece na relação entre loja, checkout e preço. Na TOTVS, na conexão entre a operação registrada no ERP e sua execução financeira. Isso ajuda a explicar por que uma instituição pode perder a preferência do cliente mesmo sem piorar seu produto: outra empresa pode passar a oferecer uma solução suficiente dentro da rotina que ele já utiliza.

Minha tese é que essa proximidade altera a negociação de valor na cadeia. Uma plataforma que influencia a escolha do serviço pode ganhar poder comercial diante dos fornecedores financeiros. A infraestrutura, por sua vez, pode preservar relevância quando entrega uma capacidade difícil de substituir, como qualidade de processamento ou resolução de problemas. O resultado dependerá dessa divisão de competências e de receita. Distribuir o serviço, processá-lo e assumir a responsabilidade pela experiência são funções distintas; nenhuma delas captura toda a economia automaticamente.

Para founders e lideranças de produto, a decisão começa pela tarefa em que a empresa já tem uma vantagem real. A partir daí, é possível escolher qual serviço financeiro amplia o resultado do cliente e quais capacidades precisam ser próprias. Na experiência da Maquinona, produto, parceiros, logística e P&L precisavam ser construídos juntos. A comparação reforça uma disciplina: avaliar a nova receita junto ao custo de sustentar a promessa feita ao usuário, inclusive quando algo falha.

A agenda de acompanhamento muda conforme o modelo. No Asaas, importa distinguir uso adicional por canal de transferência de volume entre suas soluções. Na Nuvemshop, separar adesão incentivada de melhoria na venda e na contribuição combinada. Na TOTVS, verificar se acesso à base se transforma em uso recorrente com pouca intervenção operacional. Esses testes evitam chamar qualquer aumento de volume de sucesso em embedded finance.

A oportunidade para uma fintech especializada continua existindo, mas exige clareza sobre onde ela cria uma diferença que o cliente ou a plataforma aceita remunerar. Para quem controla um software, incorporar serviços financeiros pode fortalecer o negócio principal, desde que a monetização não prejudique a experiência que originou a relação. É essa compatibilidade entre valor para o cliente e economia para os participantes que eu colocaria no centro das decisões de expansão.

Recorte e critérios desta edição

Esta edição reúne movimentos selecionados de 12 a 18 de outubro de 2026, com contexto histórico para aprofundar a análise. A Nuvemshop aparece como comparação estratégica, sem lançamento confirmado nessa semana. As fontes estão indicadas ao longo do texto. Declarações das empresas e hipóteses de análise não equivalem a resultados comprovados.

As referências à experiência no iFood são relatos de Ivan Fernandes e não comprovam resultados nas empresas comparadas. Condições comerciais podem mudar. Esta edição não pretende cobrir todos os acontecimentos do período.